quarta-feira, 23 de maio de 2012

Introdução À Teoria Das Áreas Monetárias Ótimas

Na segunda metade do século XX, o processo de regionalização ficou mais acirrado, impondo grandes desafios para as economias que necessitam cada vez mais de cooperação recíproca. Essa cooperação, porém, não se configura ação simples, mas revela a dificuldade em aproximar de forma consistente diversas nações com alto grau de complexidade. No aspecto econômico, uma das principais ações a ser coordenada é o rumo da política monetária.  Mesmo em meio ao debate teórico, até a década de 1970 a política monetária era entendida como um instrumento keynesiano que deveria ser utilizado em favor da sustentação de elevados níveis de emprego. Em meados dos anos 1980, porém, o principal objetivo da política monetária modifica-se para a busca da estabilidade dos preços (MENDONÇA, 2002).

Essa modificação teve como marco histórico o fim do Sistema de Bretton Woods (1971), simultaneamente à elevação internacional dos preços causada pelos sucessivos choques do petróleo. Além disso, a academia contribui pra que houvesse a constituição desse novo alvo da política monetária, diversos trabalhos foram dedicados para esse fim. Entre os autores consagrados naquele período, destacam-se Milton Friedman (1956) que reformulou a Teoria Quantitativa da Moeda, Lucas e Sargent (1981) que introduziram o conceito de expectativas racionais e Kydland e Prescott (1977), com os estudos sobre a credibilidade das políticas monetárias.

Assim, a política monetária pode assumir dois objetivos, por vezes conflitantes, ou seja: (1) a manutenção do pleno emprego e (2) a estabilidade dos preços (MCKINNON, 1963). Existe ainda uma terceira base macroeconômica visada, a estabilidade nas contas externas, para a qual as taxas de câmbio desempenham papel fundamental. O câmbio é a principal variável levada em consideração ao se analisar o perfil do Balanço de Pagamento. De acordo com Kenen (1969), um regime cambial capaz de criar um equilíbrio externo sem causar desemprego ou inflação é considerado um regime ótimo.


Com o fim do padrão monetário internacional definido em Bretton Woods, os debates sobre o regime cambial mais adequado intensificaram-se. A dicotomia entre câmbio flexível e regulado tomou conta da pauta de discussões. Segundo Margarido e Vasconcelos:

O argumento clássico a favor do regime flutuante é que a política monetária teria flexibilidade para adotar outros objetivos que não o de defesa da paridade cambial, ou seja, a política monetária seria independente. Desse modo, as políticas monetárias e fiscais poderiam ser conduzidas com o intuito de atender objetivos domésticos de pleno emprego com estabilidade de preços, crescimento, distribuição equitativa da renda, dentre outros. E, ainda, a possibilidade de modificar o câmbio permite ao país melhores condições de defesa dos choques externos. (MARGARIDO; VASCONCELOS, 2001, p. 7).

Sambatti e Rissato acrescentam ainda:

Um outro ponto a ser destacado é que a taxa de câmbio pode variar sem restrições, de modo que os choques de demanda podem ser esterilizados rapidamente e os desequilíbrios do Balanço de Pagamentos podem ser corrigidos mediante ajuste da taxa de câmbio. (SAMBATTI; RISSATO, 2004, p. 4).

Segundo Mayer, no entanto, “[...] o aumento da incerteza necessário a uma maior independência monetária também prejudica o comércio e o investimento” (MAYER; DUESENBERRY; ALIBE, 1993, p. 638). Dizendo de outra maneira, as economias sob o regime de câmbio flutuante estão expostas às mudanças bruscas do cenário internacional. Assim a análise prospectiva da economia torna-se prejudicada.

Por outro lado, o regime de câmbio fixo é apontado como vantajoso para os agentes que desejam “[...] horizontes mais estáveis à taxa de câmbio, uma vez que auxilia na estabilidade dos preços e expectativas, servindo como referência na tomada de decisões dos agentes [...]” (FRANKEL, 1999, p. 11). Todavia, a manutenção desse regime fora apontado como de alto custo. Seus críticos afirmavam que seria desvantajosa em ambientes de alta inflação – as políticas monetária e fiscal estão vinculadas à política cambial, não podendo atuar de forma eficiente no controle de preços. Além disso, é um regime problemático quando da existência de divergências políticas nacionais[1] – uso do câmbio para estimular exportações poderia causar mal estar entre as nações de uma determinada região (MAYER; DUESENBERRY; ALIBE, 1993, p. 638).

Mundell (2004) se mostrou cético quanto à eficácia do regime de câmbio livre no que se refere ao ajustamento de desequilíbrios. Um dos grandes argumentos em favor da taxa de câmbio flexível apoia-se na capacidade desse regime ajustar os níveis de inflação e de desemprego graças à referida liberdade das políticas nacionais. No entanto, como afirma o autor, choques na economia levariam os países a iniciar desvalorizações de suas moedas de maneira generalizada[2], o que implicaria na perda da capacidade de tais políticas efetivarem o ajuste econômico. Mundell, contudo, aceitava que, dependendo das características econômicas de uma determinada região, seria eficiente que as taxas de câmbio flutuassem.

O fato é que com o fim do acordo de Bretton Woods, os anos seguintes foram marcados pela decisão de diversos países em adotarem a livre flutuação de suas taxas de câmbio. Na década anterior, contudo, Mundell já apresentara uma teoria alternativa ao regime de câmbio flutuante. Em seu artigo A theory of optimum currency areas (1961), este autor discute os mecanismos necessários para que uma região possa alcançar o pleno emprego, a estabilidade dos preços e o equilíbrio externo. A pergunta lançada por ele nesse contexto foi: na construção de um mercado comum o que é melhor, moedas nacionais que flutuem entre si, que sejam fixas ou que exista uma moeda comum a toda uma região?

O próprio Mundell trata de apontar as vantagens envolvidas na discussão sobre as Áreas Monetárias Ótimas (AMO). Segundo ele: (i) dentro de processos de integração e desintegração, novas experiências podem ser melhoradas com o entendimento da AMO; (ii) alguns países sofrem problemas com o câmbio flexível e a teoria da AMO poderia mostrar a solução quando a área monetária nacional não fosse ótima; (iii) a teoria poderia esclarecer pontos ignorados ou mal interpretados pela literatura econômica convencional.

Para desenvolver a teoria, faz-se necessária a fixação dos conceitos utilizados. Uma área monetária, segundo Mundell (1961) consiste numa região dentro da qual circula uma única moeda ou na qual as taxas de câmbio são fixas. Uma área monetária será ótima, segundo McKinnon (1963), quando as políticas fiscal e monetária forem usadas de maneira eficiente para a consecução dos seguintes objetivos:

(i)            Pleno emprego;
(ii)          Balanço de pagamento equilibrado e;
(iii)         Preços médios estabilizados.

Costuma-se dividir a evolução da teoria da AMO em uma fase antiga e outra nova. Autores como Mundell, Kenen e McKinnon representam a teoria original. Já os integrantes da teoria nova como De Grauwe, Frankel e Rose, não registram grandes divergências com o pensamento inicial. O que ocorre é que esses últimos complementaram diversos pontos da teoria inicial e deram mais ênfase a aspectos distintos. É exatamente por esse motivo que as condições apresentadas para a existência de um AMO estão focadas em pontos diferentes, dependendo do autor.


[1] De fato, o próprio Mundell (1961) argumenta que a utilização de um sistema de câmbio fixo em uma região está condicionada, entre outras coisas a coordenação política entre os países envolvidos.
[2] Alguns autores chamam esse processo de guerra cambial que pode se tornar uma guerra comercial. Segundo Pettis (2009) os países que não puderem desvalorizar suas moedas para manterem-se competitivos vão reagir com protecionismo.

REFERÊNCIAS
Veja aqui as referências utilizadas
.


0 Comentários
Comentários

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comente sempre que quiser. Não moderamos os comentários, mas os mesmos serão excluídos caso:

1. Ofendam a dignidade dos autores, outros leitores e outras pessoas.
2. Critiquem os textos ou comentários sem fundamentação.
3. A intenção seja apenas causar desordem.
4. Quando tiver caráter ilegal.

Toda vez que um comentário for excluído, informaremos o motivo. Sinta-se a vontade para comentar novamente se você entendeu a proposta deste blog.

Lembre-se, este blog não é um blog profissional e mesmo que alguns textos não correspondam as ideias atuais dos autores eles serão mantidos para mostrar a evolução do posicionamento dos mesmos.

Caso queiram melhorar ou contribuir com os textos do AE, fiquem a vontade!

Obrigado.