
Nada mais interessante que lembrarmos hoje do dia das crianças, e hoje em homenagem a elas quero relembrar de uma memorável fábula popularizada por Jean de La Fontaine:
Tendo a cigarra cantado durante o verão,
Apavorou-se com o frio da próxima estação.
Sem mosca ou verme para se alimentar,
Com fome, foi ver a formiga, sua vizinha,
Pedindo-lhe alguns grãos para aguentar
Até vir uma época mais quentinha!
- "Eu lhe pagarei", disse ela,
- "Antes do verão, palavra de animal,
Os juros e também o capital."
A formiga não gosta de emprestar,
É esse um de seus defeitos.
"O que você fazia no calor de outrora?"
Perguntou-lhe ela com certa esperteza.
- "Noite e dia, eu cantava no meu posto,
Sem querer dar-lhe desgosto."
- "Você cantava? Que beleza!
Pois, então, dance agora!"
Mas o quê tem a ver formiga e cigarra num blog de economia?
Um país formiguinha chamado Eslováquia é a bola da vez no continente europeu, ao contrário do que podemos imaginar ela não é mais uma nação prestes a dar calote. Essa pátria com cerca de 5,5 milhões de habitantes não quer aderir à idéia de aumentar o socorro aos bancos da Europa via fundo de estabilização (EFSF, em inglês). O país colaboraria com cerca de 8 bilhões de euros ao fundo, no total a contribuição dos 17 países da zona do euro seria da ordem de 440 bilhões de euros.
Os parlamentares rejeitaram a idéia de ajudar os demais países do continente europeu, dos 150 parlamentares, 124 estavam presentes, dos presentes 60 se abstiveram, 55 foram a favor da expansão do EFSF e 9 foram contrários. Como não houve aprovação da maioria absoluta dos parlamentares ontem, hoje as negociações deverão ser retomadas e a perspectiva é que o apoio ao EFSF ocorra.
Independente de apoio ou não (que no final de tudo será mais uma decisão política do que econômica), vale a pena analisarmos o porquê dessa resistência toda da formiga européia. Vamos aos dados (fontes do FMI):
PIB PER CAPTA
O PIB (produto interno bruto) per capita da Eslováquia é um dos menores da zona do euro:
PIB per capita em 2010
| ||
(com paridade de poder de compra)
| ||
Irlanda
|
US$ 38.816
| |
Alemanha
|
US$ 35.930
| |
França
|
US$ 34.092
| |
Espanha
|
US$ 29.651
| |
Itália
|
US$ 29.417
| |
Grécia
|
US$ 28.833
| |
Portugal
|
US$ 23.113
| |
Eslováquia
|
US$ 22.267
| |
Brasil
|
US$ 11.289
| |
ESFORÇO FISCAL
O gasto dos governos em relação ao PIB de cada país:
Gastos do governo em % do PIB
2000
|
2010
| |
Brasil
|
35
|
38
|
Eslováquia
|
52
|
39
|
Espanha
|
39
|
46
|
Alemanha
|
45
|
47
|
Grécia
|
47
|
47
|
Portugal
|
39
|
48
|
Itália
|
46
|
51
|
Irlanda
|
31
|
53
|
França
|
52
|
56
|
Podemos observar que o único país da tabela que reduziu de fato a participação do governo na economia foi a Eslováquia, ou seja, de 52% para 39%. Entre os países com crise de dívida nenhum teve a redução dos gastos do governo.
QUEDA NA DÍVIDA
Dívida bruta dos governos em relação ao PIB de cada país:
Dívida Bruta em % do PIB
2000
|
2010
| |
Brasil
|
67
|
67
|
França
|
57
|
84
|
Alemanha
|
60
|
75
|
Grécia
|
103
|
130
|
Irlanda
|
38
|
94
|
Itália
|
109
|
118
|
Portugal
|
48
|
83
|
Eslováquia
|
50
|
42
|
Espanha
|
59
|
63
|
A Eslováquia também teve mais êxito que seus pares da zona do euro na questão da dívida. Já em outras nações européias essa proporção disparou.
Seria uma injustiça imensa com a Eslováquia caso ela empreste dinheiro para o Fundo (mesmo que ele diga: "Eu lhe pagarei (...) Antes do verão, palavra de animal, os juros e também o capital”).
A Eslováquia, segundo os dados, foi o único a fazer o dever de casa, economizar e pagar um preço, sua população sofreu (vide PIB per capta) para que as coisas pelo menos sejam melhor pares para eles. Agora vem a galera do EFSF querer dinheiro emprestado depois de ter esbanjado ... assim fica difícil.
Para finalizar a frase do presidente do parlamento eslovaco, Richard Sulik: "Eu prefiro passar vergonha em Bruxelas do que na frente dos meus filhos."
1 comentários:
Bem Vindo de volta meu caro,
Bem, não é surpresa nenhuma dessas situações apresentadas nos últimos anos pela eurozona. Aliás, nem é difícil compreender os novos traços em que essa crise irá apresentar.
Afinal, consolidar nações tão distintas e tantos aspectos sob uma mesma moeda implica não somente em coordenação econômica, mas política.
E é a política o grande entrave, não só no Brasil, mas em qualquer nação onde os interesses de algum grupo esteja em jogo.
Cabe ressaltar, que apesar dessa formiguinha europeia não desejar bancar a quebra ocorrida lá no país de Zeus, ela é capaz de conseguir grandes migalhas (nao conquistadas individualmente) por causa das cigarronas.
Abs
DSC
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