quarta-feira, 12 de outubro de 2011

A Formiga e a Cigarra


Nada mais interessante que lembrarmos hoje do dia das crianças, e hoje em homenagem a elas quero relembrar de uma memorável fábula popularizada por Jean de La Fontaine:
Tendo a cigarra cantado durante o verão,
Apavorou-se com o frio da próxima estação.
Sem mosca ou verme para se alimentar,
Com fome, foi ver a formiga, sua vizinha,
Pedindo-lhe alguns grãos para aguentar
Até vir uma época mais quentinha!
- "Eu lhe pagarei", disse ela,
- "Antes do verão, palavra de animal,
Os juros e também o capital."
A formiga não gosta de emprestar,
É esse um de seus defeitos.
"O que você fazia no calor de outrora?"
Perguntou-lhe ela com certa esperteza.
- "Noite e dia, eu cantava no meu posto,
Sem querer dar-lhe desgosto."
- "Você cantava? Que beleza!
Pois, então, dance agora!"
Mas o quê tem a ver formiga e cigarra num blog de economia?
Um país formiguinha chamado Eslováquia é a bola da vez no continente europeu, ao contrário do que podemos imaginar ela não é mais uma nação prestes a dar calote. Essa pátria com cerca de 5,5 milhões de habitantes não quer aderir à idéia de aumentar o socorro aos bancos da Europa via fundo de estabilização (EFSF, em inglês). O país colaboraria com cerca de 8 bilhões de euros ao fundo, no total a contribuição dos 17 países da zona do euro seria da ordem de 440 bilhões de euros.
Os parlamentares rejeitaram a idéia de ajudar os demais países do continente europeu, dos 150 parlamentares, 124 estavam presentes, dos presentes 60 se abstiveram, 55 foram a favor da expansão do EFSF e 9 foram contrários. Como não houve aprovação da maioria absoluta dos parlamentares ontem, hoje as negociações deverão ser retomadas e a perspectiva é que o apoio ao EFSF ocorra.
Independente de apoio ou não (que no final de tudo será mais uma decisão política do que econômica), vale a pena analisarmos o porquê dessa resistência toda da formiga européia. Vamos aos dados (fontes do FMI):
PIB PER CAPTA
O PIB (produto interno bruto) per capita da Eslováquia é um dos menores da zona do euro:
PIB per capita em 2010
(com paridade de poder de compra)
Irlanda

US$ 38.816
Alemanha

US$ 35.930
França

US$ 34.092
Espanha

US$ 29.651
Itália

US$ 29.417
Grécia

US$ 28.833
Portugal

US$ 23.113
Eslováquia

US$ 22.267
Brasil

US$ 11.289
ESFORÇO FISCAL
O gasto dos governos em relação ao PIB de cada país:
Gastos do governo em % do PIB

2000
2010
Brasil
35
38
Eslováquia
52
39
Espanha
39
46
Alemanha
45
47
Grécia
47
47
Portugal
39
48
Itália
46
51
Irlanda
31
53
França
52
56
Podemos observar que o único país da tabela que reduziu de fato a participação do governo na economia foi a Eslováquia, ou seja, de 52% para 39%. Entre os países com crise de dívida nenhum teve a redução dos gastos do governo.
QUEDA NA DÍVIDA
Dívida bruta dos governos em relação ao PIB de cada país:
Dívida Bruta em % do PIB

2000
2010
Brasil
67
67
França
57
84
Alemanha
60
75
Grécia
103
130
Irlanda
38
94
Itália
109
118
Portugal
48
83
Eslováquia
50
42
Espanha
59
63
A Eslováquia também teve mais êxito que seus pares da zona do euro na questão da dívida. Já em outras nações européias essa proporção disparou.
Seria uma injustiça imensa com a Eslováquia caso ela empreste dinheiro para o Fundo (mesmo que ele diga: "Eu lhe pagarei (...) Antes do verão, palavra de animal, os juros e também o capital”).
A Eslováquia, segundo os dados, foi o único a fazer o dever de casa, economizar e pagar um preço, sua população sofreu (vide PIB per capta) para que as coisas pelo menos sejam melhor pares para eles. Agora vem a galera do EFSF querer dinheiro emprestado depois de ter esbanjado ... assim fica difícil.
Para finalizar a frase do presidente do parlamento eslovaco, Richard Sulik: "Eu prefiro passar vergonha em Bruxelas do que na frente dos meus filhos."


1 Comentários
Comentários

Um comentário:

  1. Bem Vindo de volta meu caro,

    Bem, não é surpresa nenhuma dessas situações apresentadas nos últimos anos pela eurozona. Aliás, nem é difícil compreender os novos traços em que essa crise irá apresentar.

    Afinal, consolidar nações tão distintas e tantos aspectos sob uma mesma moeda implica não somente em coordenação econômica, mas política.

    E é a política o grande entrave, não só no Brasil, mas em qualquer nação onde os interesses de algum grupo esteja em jogo.

    Cabe ressaltar, que apesar dessa formiguinha europeia não desejar bancar a quebra ocorrida lá no país de Zeus, ela é capaz de conseguir grandes migalhas (nao conquistadas individualmente) por causa das cigarronas.

    Abs

    DSC

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